Rocco Pugliese

Rocco Pugliese era um jovem militante comunista da região italiana de Calabria (vejam seu retrato e foto), assassinado em 1930 pelos carcereiros fascistas na penitenciária da ilha de Santo Stefano, no arquipélago das Pontinas, onde tinha sido deportado em conseqüência da condenação decretada em 1928 pelo "tribunal" especial fascista.
Rocco nascera em 27 de janeiro de 1903 em Palmi, em província de Reggio Calabria, filho de Giuseppe Pugliese e Maria Polimeni, e desde muito jovem tinha militado no Partido Socialista, sendo depois em 1921 um dos fundadores da célula de Palmi do Partido Comunista de Italia, chegando a tornar-se o secretario dela com a idade de dezoito anos.
Rocco teve uma decisiva formação política revolucionária durante seu serviço militar obrigatorio, cumprido em Turim, numa cidade obreira, onde o movimento revolucionário era muito forte e ativo. O período do serviço militar foi uma verdadeira escola de quadros, e o jovem que voltou para Palmi, depois da dispensa era um dirigente comunista maduro e consciente.
(Pugliese, 2015) Em 1925, na altura dos acontecimentos que o levaram a tornar-se vítima dos assassinos fascistas, Rocco era estudante de contabilidade.

As premissas dos acontecimentos de Palmi
A vila calabrês de Palmi, naquele tempo teve aproximadamente 15.000 habitantes (tem hoje 19.000), e era uma praça-forte vermelha, centro de uma intensa actividade politica socialista e mais tarde comunista, num território com grandes herdades (principalmente citrícolas e oleícolas), com uma pesada exploração de mão de obra dos jornaleiros. (Pugliese, 2015) A célula de Palmi do Partido Socialista foi criada logo após o devastador terremoto de Messina e Reggio Calabria de 28 de dezembro de 1908, o que causou vítimas e danos na vila. Uma das batalhas mais significativas do movimento revolucionário em Palmi foi a vitória contra o absurdo aluguel imposto pelo município de Palmi às pessoas que habitavam os barracos construídos para os desabrigados após o terremoto, quem ficou em uso por 20 anos, até 1928. (Pugliese, 2015) Ainda ficou memorável o desfile de 1924, quando até cinco-mil antifascistas desfilaram a fim protestar contra o assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti por parte dos fascistas, alcançando então o cemitério da cidade para depor coroas e ramos de flores.
A forte presença antifascista em Palmi fez da cidade o alvo de assaltos violentos pelos bandos fascistas, particularmente numerosas, visto também que o "fascio di combattimento" (esquadra de combate fascista) de Palmi foi um dos primeiros a ser fundado na província de Reggio Calabria.
Nas eleições de 1924 os comunistas chegaram muito próximos a ter eleito seu candidato, o advogado Diomede Marvasi, não alcançando o quórum para alguns votos; a célula do partido registrava trezentos membros, com cento-e-oitenta membros do círculo juvenil, em grande parte camponeses e trabalhadores, além de profissionais e estudantes.
A força do movimento anti-fascista em Palmi manifestou-se um contínuo contraste à expansão do regime emergente, como quando o cacique fascista Michele Bianchi foi duas vezes impedido de fazer um discurso em Palmi, causando um curto-circuito na rede elétrica e empurrando-o a desistir da manifestação por motivos de segurança.
(Pugliese, 2015)
Nos dias antes do primeiro de maio de 1925, para impedir a celebração da Festa do Trabalho, vários líderes antifascistas foram presos sob uns pretextos, enquanto outros conseguiram escapar. A reação foi uma greve geral, convocada nos dias 2 e 3 de maio, com manifestações de rua que tiveram uma participação tão grande, que as autoridades não se atreveram a enfrentá-las.
Os fascistas estavam planejando perturbar o protesto com suas bravatas, mas os antifascistas de Palmi anteciparam-os devastando a sede local do partido fascista e destruindo os cartazes ofensivos contra os grevistas e forçando os fascistas deixar temporariamente a cidade.
(Pugliese, 2015)

Em 15 de agosto do mesmo ano um bando de batedores fascistas provindo das aldeias vizinhas acampou-se na noite às portas de Palmi para assaltar e pôr fogo nas casas dos líderes dos partidos de esquerda da vila, mas foi posta em fuga por uma centena de homens, liderados por Rocco, Giuseppe Pugliese e Antonino Bongiorno.
A base que causou os acontecimentos de 30 de agosto de 1925 foram as repetidas humilhações sofridas pelos fascistas em Palmi, ainda mais duras, como foram aguentadas por quem juntava-se a uma ideologia baseada na arrogância e no super-homismo enquanto que em muitas outras partes da Itália os batedores fascistas dominavam indisputados.

Os acontecimentos da Varia
Em 27 de agosto de 1925 começaram na cidade as celebrações religiosas da Madonna della Lettera (Mãe de Deus da carta), com a festividade tradicional festa da Varia, um grande carro votivo simbolizando a Assunção, arrastado em procissão por dois ou trezentos aldeões (os "mbuttaturi'") pelas ruas da vila, com o acompanhamento da banda. (desde 2013 a festividade, junto com outras três manifestações italianas, está incluída no Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, veja ligação). Em 1925 os fascistas impuseram que durante a festa a banda do Frigento, uma das duas envovidas na festividade, executasse o seu hino "Giovinezza" ("juventude"), e o presidente (fascista) do comitê das celebrações, apojou esto abuso.
Os fascistas quiseram então impor seu hino igualmente durante a procissão, em vez da tradicional marcha alegre composta por Rosario Jonata, e a gente de Palmi resistiu ao abuso, exigindo a restituição das contribuições dadas e boicotando o transporte da Varia, visto também que os portadores por tradição pertenciam as cinco guildas dos carreteiros, marinheiros, açougueiros, artesões e camponeses, e eram em maior parte comunistas e socialistas.
Na verdade para o transporte do carro ofereceram-se apenas cinco marinheiros e cinco carreteiros e a procissão, transformada por esta altura em uma parada política fascista, foi boicotada até pelos padres: de facto apenas um deles participou na procissão.
As provocações fascistas continuaram e a tensão alcançou seu máximo em 30 de agosto na meia-noite, quando a cidade assistia aos fogos-de-artifício: os fascistas estouraram entre as mesas do café De Rosa, frequentado por comunistas e socialistas, insultando-os e começando cantar uma vez mais "Giovinezza". Rocco Pugliese intimou parar a provocação, começando a cantar o hino comunista "Bandiera Rossa" (bandeira vermelha), mas foi assaltado com pauladas por um fascista e reagiu jogando uma cadeira. No curso da algazarra gerou-se um tiroteio naquele ficaram feridos dois fascistas, Rocco Gerocarni, quem morreu o dia seguinte, e Rosario Privitera, além de dois transeuntes (veja a notícia em "l'Unità" de 2 de setembro de 1925 e a versão fictícia da agência de notícia oficial Stefani, publicada pelo diário de Turim "La Stampa" de 1
ro de setembro de 1925).
A reação do nascente regime fascista foi durissima: o comissário de polícia Francesco Cavalieri prendeu muitos antifascistas da região, acusando-os de organizar uma conspiração subversiva; o mesmo Cavalieri admitiu mais tarde, durante o processo, que as apreensões deviam-se a razões políticas e não eram ligados ao homicídio (veja "l'Unità" de 8 de setembro de 1925).
De acordo com o escritor Leonida Repaci (veja abaixo) quem foi testemunha dos acontecimentos, o objetivo real dos tiros era ele mesmo, quem teria sido atingido de esguelha por duas balas, enquanto a terceira matou Gerocarni. Os tiros foram disparados do terraço da família Sambiase, em frente do café, pelos mesmos fascistas, que por engano atingiram seu companheiro Gerocarni. O motivo da emboscada deve-se emoldurar no contexto da repentina explosão da violência por parte da ala linha-dura do fascismo, liderada pelo manda-chuva dos batedores fascistas Farinacci, a fim de romper o impasse em que Mussolini tinha caído depois do assassinato de Matteotti e das consequentes reacções por parte dos antifascistas. O objetivo do assalto de Palmi era de qualquer maneira uma vila com firmes princípios antifascistas, sendo portanto punida por sua recusa de submeter-se à violência do batedores fascistas.
Farinacci enviou um telegrama instigando à vingança e em 15 de setembro os bandos fascistas devastaram o círculo "Unione e Progresso" e a casa do operário comunista Managò, quem ainda foi prendido mais tarde pela polícia. Os fascistas igualmente assaltaram a casa do irmão de Leonida Repaci onde roubaram objectos e dinheiro, e tentaram invadir a prisão de Palmi, para linchar os antifascistas prendidos para os eventos de Varia.
O journalista Giuseppe Dato, correspondente do jornal "Gazzetta di Messina e delle Calabrie", mesmo sendo ele também um fascista, foi agredido e jogado numa vasca cheia de água, porque tinha criticado em uma correspondência as violências dos bandos fascista.
Os fascistas nos dias seguintes impediram de fato o acesso a todos os que não fossem agradecidos a eles, incluindo os advogados dos acusados (veja "l'Unità" de 15 de setembro de 1925).

O "processo"
A morte de Gerocarni foi atribuída por uma preconcepção aos comunistas, e a investigação preliminar foi conduzida em uma maneira extremamente parcial: muitas testemunhas que tinham dado depoimentos de acusação contra os réus, retrataram, relatando ter sido ameaçadas pelos fascistas e, no mesmo ano, em outubro, duas das testemunhas mataram-se, e um deles deixou uma mensagem em que explicava que o seu suicídio era devido ao remorso por ter injustamente acusado Leonida Repaci, Giuseppe Pugliese e Giuseppe Marazzita, mas a corte não considerou todo esto.
O 5 dezembro o Procurador-Geral do Tribunal da Relação de Catanzaro pediu o despacho de pronúncia de trinta-um pessoas para cumplicidade em homicídio premeditado e tentativa de homicídio premeditado. A seção da acusação do Tribunal da Relação de Catanzaro em 29 de março de 1926 pediu o despacho de pronúncia de quinze pessoas perante do tribunal criminal de Palmi, enquanto as outras foram declaradas inocentes ou absolvidas ou por insuficiência de provas, como no caso de Leonida Repaci (veja "l'Unità" de 3 de abril de 1926).
O processo começou perante do tribunal criminal de Nicastro, onde foi remitido para legítima suspeita. Com um abuso que antecipava a futura gerência da justiça pela parte do regime fascista, os advogados de defesa designados pelos acusados, Gullo, Lo Sardo e Riboldi, foram prendidos e enviados ao desterro; o processo foi então suspendido porque o Procurador-Geral pediu o despacho de pronúncia de quatro testemunhas que retraíram seus depoimentos acusatórios.
No mesmo 1926, seguindo o atentado do rapaz de quinze anos Anteo Zamboni, que tentou matar Mussolini, com as leis de emergência de 26 de novembro de 1926 foi estabelecido o tribunal especial pela defesa do estado. O nome de "tribunal" era absolutamente injustificado, visto que não era constituído por juizes, mas por militantes do partito fascista, e em particular por cônsules da MVSN (Milícia voluntária da segurança nacional).
Em 12 de março de 1928 o tribunal de cassação declarou com uma sentença que o processo teve que ser atribuído ao tribunal especial, onde em 27 de novembro do mesmo ano começou o debate. Os quinze acusados antifascistas tinham passado mais de três anos em prisão preventiva, e eram acusados de "homicídio, tentativa de homicídio, ações tendentes a causar a guerra civil, insurreição contra os poderes do Estado".
Entre os acusados havia Rocco Pugliese, quem teve antes da corte um comportamento de nenhum modo submisso, coerente com a sua intransigência na luta antifascista; para ele o Ministério Público Isgrò pediu a prisão perpétua, por outros oito acusados a pena proposta foi de 30 anos, enquanto a sentença mais "leve" pedida foi de 12 anos e por apenas um acusado foi pedida a absolvição por insuficiência de provas. A pena de morte foi abolida na Itália em 1889 (de facto desde 1877) e foi restabelecida pelo regime fascista em 1930.
Em 5 de dezembro de 1928, apenas oito dias após o começo do processo, o tribunal (Presidente Tringali-Casanova, relator Presti), pronunciou a Sentença n. 145, que cominava durissimas condeneções: a mais pesada, de 24 anos e 7 meses, tocou precisamente a Rocco Pugliese, enquanto Natale Borghese e Vincenzo Pugliese foram sentenciados a 10 anos e 8 meses, Giuseppe Florio e Gregorio Grasso 10 anos e 7 meses, Giuseppe e Antonio Bongiorno 8 anos e 7 meses. Este último foi outra vez julgado pelo Tribunal especial em 1935, para a organização e a participação ao Partido Comunista, e recebeu uma outra condenação a 12 anos.
Os outros seis antifascistas foram absolvidos, entre eles Francesco Carbone, Antonio Sambiase, Giuseppe Pugliese, Pasquale Carella e Giuseppe de Salvo, além do advogado socialista Giuseppe Marazzita, futuro senator da República, que embora foi então encarcerado muitas vezes nos restantes anos da ditadura fascista.
Também deve se lembrar que Fortunato, irmão mais velho de Rocco, nascido em 7 de maio de 1891, cocheiro de profissão, casado com oito filhos, foi preso no dia 30 de novembro de 1926 para ter demonstrado solidariedade com Rocco, e foi atribuído ao confinamento em Lampedusa e, depois, na ilha de Ustica. Apesar da morte duma filha e, embora estava sofrendo dum tracoma exsudativo que o fez quase cego, foi mantido em detenção e liberado somente em março de 1929.

O caso Repaci
Outro antifascista de Palmi envolvido nos acontecimentos da Varia foi Leonida Rèpaci (1898-1985), escritor e mais tarde também pintor, criador do Prémio Literário Viareggio, sindo ele também advogado que, de acordo com Francesco Spezzano, senator do Partido Comunista depois da guerra mundial, era o verdadeiro alvo, junto com Rocco Pugliese, da expedição punitiva do bando de batedores fascistas.
Repaci foi encarcerado mas, como mencionado previamente, foi depois absolvido durante a investigação preliminar e não foi remetido ao Tribunal especial. A sua absolvição, como aquela de outros acusados, foi atribuída às intervenções de almofadinhas, no caso de Repaci aquela de Arnaldo Mussolini, irmão do duce, além do conselho de defesa constituído por peixes graúdos do regime. Em todo caso Repaci beneficiou de numerosos testemunhos de personalidades bem aceites ao regime fascista. Além disso seu irmão mais velho Gaetano foi médico de família de Mussolini.
Repaci de toda maneira, após ainda mais do que um mês após sua absolvição, demitiu-se do Partido Comunista com uma carta, publicada por l'Unità o 6 maio 1926 em que reivindicava a sua posição política marginal e colateral a aquela do PCdI e anunciava seu próprio retorno à privança.
L'Unità respondeu à carta de Repaci em uma maneira muito polêmica, com um artigo não assinado mas atribuido ao Antonio Gramsci, contrapondo o declararse fora de Repaci aos sofriments dos presos políticos comunistas quem não renegavam as próprias escolhas políticas.
A controvérsia continuou também em 1944, depois da libertação de Roma, entre "l'Unità" e o diário reaccionário "Il Tempo", em que Repaci defendeu-se atacando aqueles que o acusaram de ter sido absolvido pela intervenção do regime, mas depois deixou cair a polêmica, quando "l'Unità" publicou uma carta de Antonino e Giuseppe Bongiorno que relatava muitos fatos que confirmaram as intervenções em seu favor de parte de almofadinhas do regime.
Enquanto estava encerrado Rèpaci escreveu "In fondo al pozzo" (no fundo do poço), um romance com muitas referências autobiográficas, mesmo aos eventos da Varia de 1925.

O assassinato
Rocco Pugliese foi aprisionado na penitenciária de Santo Stefano (veja minha página) que era usado pelo regime fascista para alí deportar os opositores mais perigosos, com o intento de dobrar a sua vontade com as durissimas condições de detenção. Aos presos políticos sentenciados pelo tribunal especial eram afligidos por um tratamento particular duro, com a isolação dos prisioneiros comuns, a fim evitar que seu carisma poderia exercer influência neles. Eles foram também submetidos a uma vigilância mais estrita, exortada aos carcereiros por um cartaz afixado às portas das suas celas, que admoestava: "prisioneiro perigoso a vigiar com cuidado".
Em Santo Stefano Rocco manteve seu comportamento orgulhoso ("um exemplo de resistência e de orgulho, de acordo com Vico Faggi), e recusou submeter-se à máquina carcerária fascista, que fêz-lhe pagar caro, no início com aborrecimentos e torturas contínuos, e finalmente com a morte, que ocorrera em 17 de outobro de 1930.
De acordo com a versão oficial Pugliese cometiu suicídio pendurando-se, enquanto uma outra versão, não muito acreditável, alega que ele morreu sufocado quando dois carcereiros tentaram alimentar o forçadamente com uma sonda, amarrado à cama de contenção. A alimentação forçada teria sido decidida em conseqüência de uma suposta greve da fome de Rocco.
Na realidade diversas fontes acreditáveis afirmam que Pugliese foi estrangulado ou então matado a pancadas pelos carcereiros: de acordo com Francesco Spezzano "depois de lançar-lhe na cabeça uma coberta (...) mataram-o a pauladas" e além disso "seus gritos desesperados foram ouvidos por muito tempo pelos seus companheiros de aprisionamento (...) que, cerrados nas outras celas, não puderam fazer nada para ajuda-lo" e então "a emoção para o bárbaro assassinato foi enorme entre os prisioneiros que fizeram então uma coleta para mandar uma coroa de flores a seu funeral".
O tratamento acima descrito era chamado pelos carcereiros o "Sant'Antonio", com um termo derivado do calão dos camorristas, os mafiosos de Nápoles: consistia em irromper de repente na cela, cobrir a vítima com uma coberta, e então atingi-la duramente com pontapés, socos, pauladas o com as grossas chaves das celas. A coberta servia para não fazer reconhecer os agressores, para sufocar os gritos da vítima e impedir-lhe de reagir, e também para não deixar traços no corpo do alvo do espancamento, quem pudessem testemunhar a agressão. De acordo com Giuseppe Mariani, anarquista da região da Ligúria já encarcerado em Santo Stefano, naquele penitenciária durante os espancamentos tampouco usava-se a coberta, pois que os guardas, estando certos da sua impunidade, não julgavam oportuno tomar nenhuma precaução.
O comunista Giovanni Pianezza, companheiro de cela de Rocco, obteve a permissão de poder ficar na morgue para o velório do cadáver, declarando ser seu primo. Em um momento de desatenção dos guardas teve exito em levantar o lençol que cobria o corpo e viu que a cara era cadavérica, como por uma morte para asfixia. Surpreendido pelos carcereiros, foi ameaçado morrer na mesma maneira de Rocco, se tinha falado, e então foi imediatamente transferido.

O socialista Sandro Pertini, quem foi presidente da República italiana de 1978 a 1985, encerrado em Santo Stefano de 1929 a 1930, muitos anos depois, em 1947, elegido deputado da Assembleia Constituinte, rememorou num discurso no plenário que "Rocco Pugliese foi assassinado na prisão de Santo Stefano enquanto eu era lá, na sua cama com faixas de contenção".
O discurso de Pertini era uma réplica à resposta do ministro da Justiça Giuseppe Grassi a uma interpelação parlamentar dele concernindo o espancamento de parte dos carcereiros de alguns prisioneiros da cadeia de Poggioreale em Nápoles, que teve por conseqüência a morte de um deles.
Pertini foi muito claro: "... eu falo por experiência pessoal (...) . Na cadeia, honorável ministro, acontece isto: um prisioneiro é golpeado; na conseqüência dos sopros o prisioneiro morre, e então todos empeçam preocupar-se, e não somente os carcereiros que bateram o prisioneiro, mas igualmente o diretor, o doutor, o capelão e todos os que fazem parte do pessoal da cadeia. E então fazem esto: desnudam o prisioneiro, penduram o à grade da janela e o deixam descubrir assim pendurado. Então chega o doutor e escreve um relato de morte por suicídio. Esta foi a morte de Bresci. Bresci foi golpeado à morte, então penduraram o seu cadáver à grade da janela da sua cela de Santo Stefano, onde eu estive por um ano e meio".
Pertini referia-se à morte de Gaetano Bresci, anarquista de Prato, perto de Florença, condenado à prisão perpétua pelo assassinato do rei Humberto I (veja a minha página sobre dele), que morreu em 1901, após poucos meses de sua transferência a Santo Stefano.
Além disso Pertini, num testemunho relatado em um livro editado por Vico Faggi, conta: "Uma noite fui acordado por um grito abafado: «mamã, mamã!». O dia depois alguém espalhou o boato que Rocco Pugliese tinha-se pendurado; mas o suicídio não era nada mais que uma encenação. Pugliese tinha sido matado pelos carcereiros."
Na mesma obra lembra-se que o assassinato dos presos políticos nas prisões fascistas não era um caso isolado, como demonstrado pelos exemplos de Gastone Sozzi na cadeia de Perugia e de Romolo Tranquilli, o irmão de Ignazio Silone, na cadeia de Procida. A edição clandestina de l'Unità de 1
ro de janeiro de 1929 enumerava os nomes dos prisioneiros comunistas falecidos ou de qualquer maneira sofrendo nas prisões fascistas.
O falecimento de Rocco foi imediatamente percebido como um assassinato e a notícia chegou aos círculos anti-fascistas na Itália e no exílio. O jornal do Partido Comunista francês "L'Humanité", publicou em 21 de dezembro de 1930 um artigo de Gabriel Péri, que mais tarde tornou-se deputado comunista, intitulado: "Comment périrent à San Stefano les communistes Castellano et Pugliesi" ("Como faleceram em Santo Stefano os militantes comunistas Castellano e Pugliesi")
(Pugliese, 2015) denunciando a morte de dois prisioneiros comunistas, Castellano e Rocco Pugliese, (erroneamente denominado "Pugliesi"), e o grave estado de saúde do militante comunista Emmanuelli e de Sandro Pertini, doente com tuberculose. O artigo atribuía a morte de Rocco a uma represália das guardas por ter recusado seus avanços sexuais, dando em lugar o alarme em voz alta. Mais tarde Rocco teria sido tiranizado, fornecendo-lhe comida incomível, que ele teria recusado, desencadeando a segregação e o jejum na "cama de contenção" e o subsequente falecimento.
O artigo de Péri e a propagação da notícia pelos antifascistas exilados envergonharam o regime fascista, e Mussolini estabeleceu uma ridícula comissão de inquérito sobre as condições dos prisioneiros nas cadeias, que previsivelmente não deu resultados, com exceção dum alívio temporário do brutal tratamento nas prisões.
Em todo caso a família de Rocco soube da sua morte quase por acaso e o cadáver não foi nunca restituido.
(Cordova, 1965) A sede cemtral da polícia de Reggio Calabria deu instruções para evitar um funeral público em Palmi, dando ordens para um transporte nocturno do cadáver ao cemitério, mas, na verdade, o corpo de Rocco nunca chegou em Palmi e foi provavelmente destruído já em Santo Stefano (PUGLIESE, 2015), como provavelmente aconteceu com o cadáver de Gaetano Bresci.

Uma obra teatral e quatro livros
A companhia teatral Teatridelsud de Palmi encenou "L’Arrobbafumu" um espetáculo de Francesco Suriano, interpretado por Peppino Mazzotta, tirado por um livro do mesmo autor, que toma ocasião dos acontecimentos de Palmi para contar a Calabria e os seus atrasos do desenvolvimento.
O escritor calabrês Domenico Gangemi publicou em 2004 um romance livremente inspirado aos eventos da Varia de 1925 intitulado "'25 nero", publicado por Pellegrini Editore.
Além disso o político moderado Natale Pace, vereador e ex-vice-presidente da câmara municipal de Palmi, em seu ensaio "Il debito" ("A Dívida"), publicado em 2006 por Laruffa Editore, relata da vicissitude de Rocco, do ponto de vista do Leonida Repaci, que era amigo próximo do autor.
Em 2015 a editora Annales de Roma publicou "Rocco Pugliese: un Comunista di Calabria" um bom livro de Lorenzo Pugliese, um parente de Rocco, que relata com paixão e envolvimento do resultado dma pesquisa de 18 anos, realizada pelo autor através de arquivos, revistas, bibliotecas e relatos de testemunhas. Este livro cumpre inteiramente o auspício que Sandro Pertini expressou a uma sobrinha de Rocco, para que o sacrifício desse jovem de Palmi nunca for esquecido.
Em 25 de abril de 2018, a cidade de Palmi colocou uma placa no local onde ficava a casa natal de Rocco Pugliese.
Para eterna memória, aqui ficava a casa natal de
Rocco Pugliese 1903-1930
Um comunista palmense que com outros jovens antifascistas estabeleceu a secção do Partido Comunista da Itália em Palmi
Condenado inocente pelo Tribunal Especial pelos "fatos da Varia" de 30 de agosto de 1925 morto pela brutalidade fascista na Penitenciária de Santo Stefano
Sandro Pertini
A CIDADE COLOCOU

Rocco Pugliese hoje
Apesar de sua reclusão, do assassinato e da ocultação de seu cadáver, embora mais de 80 anos se passaram desde a sua morte e talvez ninguém daqueles que conheciam Rocco ainda está vivo, aquele jovem de Calabria de 27 anos ainda está vivo na memória, e seu sacrifício ainda desperta gratidão e seu brutal assassinato ainda inspira horror e indignação.

agradecimentos a Stefania Marino e a Lorenzo e Giuseppe Pugliese para as preciosas informações

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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- AJELLO Nello (2003) Il confino. Ecco le vacanze che offriva il duce. La Repubblica, 13 settembre 2003, pag. 39.

- CORDOVA Ferdinando (1965) Il processo Gerocarni. Historica, 16 (18): 196-212.
- CORDOVA Ferdinando (1977) Alle origini del PCI in Calabria - 1918-1926. Bulzoni, Roma.
- CORDOVA Ferdinando (1994) Un originale documento sui fatti di Palmi dell'estate del 1925, Historica, XLVII-4, pag. 157-167.

- DA PASSANO Mario Il «delitto di Regina Cœli» (ligação)
- DAL PONT Adriano (1975) I lager di Mussolini. La Pietra, Milano.
- DAL PONT Adriano, LEONETTI Alfonso, MAIELLO Pasquale, ZOCCHI Lino (1962) Aula 4: tutti i processi del Tribunale speciale fascista. ANPPIA, Roma.
- FAGGI Vico (a cura di) (1970) Sandro Pertini: sei condanne due evasioni. Mondadori, Milano.
- GALZERANO Giuseppe (1988) Gaetano Bresci: la vita, l' attentato, il processo e la morte del regicida anarchico. Galzerano editore - Atti e memorie del popolo - Casalvelino Scalo (Salerno). tel. e fax: 0974.62028
http://galzeranoeditore.blogspot.it/ e-mail: giuseppe.galzerano@tiscalinet.it
- GANGEMI Domenico (2004) '25 nero. Luigi Pellegrini Editore, Cosenza.
- GHINI Celso, DAL PONT Adriano (1971) Antifascisti al confino 1926-1943. Editori Riuniti, Roma.
- LISA Athos (1973) Memorie. In carcere con Gramsci. Feltrinelli, Milano.
- MARIANI Giuseppe (1954) Nel mondo degli ergastoli, S.n., Torino.
- PACE Natale (2006) Il debito. Leonida Repaci nella storia. Laruffa Editore, Reggio Calabria.
- PERTINI Sandro (1947) em* "Atti dell’Assemblea Costituente. Discussioni", IX, 19 novembre 1947, 2179-2180.
- PUGLIESE Amelia (s.a.) Viaggio nella casa di correzione penale di Santo Stefano. (
ligação).
- PUGLIESE Lorenzo (2015) Rocco Pugliese: un Comunista di Calabria). Annales, Roma. (
ligação)
- SPEZZANO Francesco (1968) La lotta politica in Calabria: (1861-1925). Lacaita, Manduria.
- SPEZZANO Francesco (1975) Fascismo e antifascismo in Calabria. Lacaita, Manduria.
- SPEZZANO Francesco (1984) Voce "Pugliese, Rocco" in "Enciclopedia dell’antifascismo e della Resistenza". La Pietra-Walk Over, Milano. IV: 813-814.
- SPRIANO Paolo (1969) Storia del Partito Comunista Italiano. Einaudi, Torino.

SITES CONSULTADOS (acessíveis em 29 de janeiro de 2019):
http://www.ecn.org/filiarmonici/santostefano.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Palmi
http://www.domenicogangemi.it/
http://it.wikipedia.org/wiki/Leonida_R%C3%A8paci
http://www.terreprotette.it/tp2/106
http://www.ventotene.it/escursioni.aspx
http://www.traveleurope.it/ventoten.htm
https://circoloarmino.files.wordpress.com/2014/04/antifascisti-nati-o-residenti-a-palmi.pdf


não mais acessíveis em 29 de janeiro de 2019:
http://www.anpi.it/ts/1928_4trim.htm
http://www.variadipalmi.it/curiosita.asp?modulo=leggi&ID=6
http://spazioinwind.libero.it/nb/vittoriofoa/tribunale.htm
http://www.teatrodellacquario.com/stagioni/2007/schede/arrobbafumo.htm
http://www.variadipalmi.it/
http://www.marcellobotarelli.it/santostefano/index.htm
http://www.istoreco-re.it/isto/default.asp?id=326&lang=ITA

Me desculpo por qualquer falha na tradução portuguesa:
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página criada em: 3 de novembro de 2009 e modificada pela última vez em: 12 de fevereiro de 2019